Acessibilidade sequestrada … ou ausência de infraestrutura?

O que acontece quando desejamos atravessar a rua sobre a faixa e ao chegar na calçada deparamos com meio fio alto ou um poste de iluminação?
Ou no ato da travessia percebemos que a faixa está sendo ocupada pelos automóveis?

Esses e outros exemplos são situações vividas diariamente em muitas cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, por exemplo, alguns cruzamentos são surpreendidos pela falta de coerência: faixas que se conectam com paralelepípedo, outras cortadas por ciclofaixas, semáforos que não funcionam para os pedestres e por aí vai. Não é fácil caminhar pela cidade.
Infelizmente os traçados e as dimensões são na sua maioria, inadequadas para uma travessia segura. O pedestre deve estar atento SEMPRE!

Tanto como urbanista como pedestre, devo aqui denunciar essas situações abusivas dos autores dissimulados. Seria engraçado se não fosse triste ainda encontramos ruas mal desenhadas, incompletas, erradamente projetadas. Não compreendo a falta de interesse de nossos representantes em cuidar da cidade. E isso não é de agora. A última vez que houve projetos urbanísticos para alguns pontos na cidade foi há quase 25 anos com o Rio-Cidade, Favela-Bairro entre outros.

Uma pena!

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faixa de pedestre2

faixa de pedestres

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Via compartilhada – Pedestres e Ciclistas.

Como é difícil pedalar e caminhar nas vias de passeio pelas cidades brasileiras. Concordo que lugar de bicicleta é na ciclovia ou na rua mas enquanto não haverem infraestrutura adequada e segura, infelizmente o compartilhamento acontecerá. Conflitos na circulação urbana existem. A disputa pelo espaço físico entre os protagonistas é constante. São tantos tropeços verbais vindo de pedestres, como também atos de indisciplina por parte dos ciclistas.
Tudo bem se fosse apenas isso.
Quantas vezes você está caminhando para a estação do metrô ou para o trabalho, não importa, e de repente você esbarra numa pessoa que está de cabeça baixa mexendo no celular? Ou quando alguém na sua frente resolve parar para olhar a vitrine que está do outro lado da rua? Tenho certeza que também você já viveu uma situação em que o ciclista vem na sua direção acreditando que você é quem tem que desviar. Aí você sai pela direita mas antes mesmo de você finalizar o movimento, o ciclista já foi para mesma direção.

” Há só uma regra que conheço: Você tem que ser gentil!”. (Kurt Vonnegut, escritor americano)

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pedestres e pedestres

Lembre-se:
A situação de hoje que você protagoniza é recíproca. Todos são protagonistas, o que difere é a circunstância de cada um.

A difícil arte de caminhar pelas calçadas no Rio de Janeiro.

Caminhar é a única maneira que nós humanos utilizamos para se deslocar. Em qualquer situação, precisamos de um piso nivelado, revestido com material confortável, resistente e claro, de fácil manutenção. Seja na moradia, no escritório, nas áreas de lazer, nas ruas, para que o deslocamento seja seguro, a acessibilidade precisa ser seguras.
Nas calçadas na maioria de nossas cidades brasileiras, é raro encontrar uma via de passeio com um bom acabamento. Muitas são recheadas de buracos, ou desníveis no piso ou quando são disputadas pelos veículos estacionados sobre elas. As pessoas com deficiência, portadoras de auxílio para se locomoverem ou os carrinhos de bebês sofrem bastante ao usarem as calçadas. Outra característica percebida é a existência de desníveis na via. Quando chove, os pedestres andam em ziguezague driblando as poças d’água, com a preocupação de não bater com o guarda-chuva. É muito estressante.

QUEM DEVE SER O RESPONSÁVEL?

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Densidade.

Li recentemente o livro da Jane Jacobs – “Morte e Vida das Grandes Cidades”. Escrito em 1961, este livro descreve a importância das cidades serem densas para uma cidade saudável. É incrível a visão realista da autora.

Morei na Barra da Tijuca por 23 anos.  É um bairro espraiado onde vários grupos residenciais se alternam entre edifícios altos e baixos, multifamiliares ou unifamiliares, núcleos comerciais expandida por quilômetros de distância. O Plano Urbanístico proposto pelo arquiteto urbanista Lúcio Costa, seguia a receita americana colocando a mobilidade centrada no transporte motorizado individual. (LÚCIO COSTA, 1995). Posso dizer que adorava essa facilidade de usar o carro para ir na farmácia, no botequim (na verdade o que existe são lojas de conveniências instaladas dentro de postos de gasolina), no banco, pois era fácil encontrar estacionamento seguro e gratuito. Vale ressaltar que era desgastante quando esquecia de comprar alguma coisa pois não dava para ir a pé nem de ônibus – só mesmo usando o carro. Usar a bicicleta também era complicado porque não havia (e acredito que ainda não há) bicicletário e paraciclos. Mesmo assim para mim naquela época era prazeroso.

Mas uma coisa me incomodava muito. Não havia encontros casuais com os amigos. Apenas nos shoppings centers, na praia, nos clubes ou nos mercados. As calçadas não são usadas porque as distâncias entre os estabelecimentos são enormes. Não podemos desconsiderar a importância da presença de pessoas ao longo do dia, pois além de ser saudável, contribui para a segurança.

Jane Jacobs destaca, “a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, tanto para aumentar na rua o número de olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas” e continua “além do mais, nenhuma pessoa normal pode passar a vida numa redoma … todos precisam usar as ruas”.

Anexei algumas imagens tiradas na Avenida das Américas em diferentes pontos. Percebe-se a presença de carros apenas.

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É importante tornar as cidades densas. Misturar residências e comércio. Colocar a acessibilidade como fator fundamental para que mais pessoas possam caminhar. E sem dúvida, promover a mobilidade urbana com transporte coletivo eficiente atendendo diversos pontos do bairro.

Pedestre em primeiro lugar!

http://www.arch2o.com/dubai-launch-flying-car-july-2017/

Essa é a estratégia que Paris adotou desenvolvendo projetos voltados para o ato de caminhar por toda a cidade. Seguindo outras cidades da Europa, Paris cada vez mais coloca a mobilidade urbana em primeiro lugar, visando principalmente a segurança dos pedestres.

Veja a reportagem de ArchDaily, por Constanza Martinez Gaete, tradução Romullo Baratto.

 

“Sabe com quem você está falando?”

Pois é, essa tão famosa frase foi dita alguns dias atrás por um cidadão que se exercitava sobre a calçada de passeio. Seu Personal montou uma pequena academia justamente sobre a calçada dos pedestres. É sabido por todos que a calçada é a via de passeio dos pedestres. Questionado com educação, perguntei porque foi montado justamente naquela área se alguns metros depois havia espaço suficiente para se exercitar próximo as instalações dos equipamentos de ginástica. A resposta foi curta: ‘Eu pago um dos IPTU mais caro do Rio de Janeiro e me exercito onde eu quiser”.

Por azar do cidadão, logo reconheci que é um profissional atuante na área de arquitetura e teatro. Uma pena.

É verdade que em muitos pontos da cidade as calçadas são mal cuidadas, são usadas como lixeiras, não são sinalizadas adequadamente mas isso não dá o direito de ocupá-la. Infelizmente no Brasil para a maioria, os pedestres são vistos como pragas urbanas. Faz-se a urgência de campanhas direcionadas às definições do que é calçada, ciclovia, ciclofaixa e área de lazer, para que a mobilidade funcione de maneira recíproca.